Sábado, 25 de Abril de 2009
«Durante este seu primeiro e último mandato, o primeiro-ministro Sócrates deu quatro entrevistas à SIC e três à RTP. Escolheu a SIC em períodos em que se sentia à vontade e a RTP ao sentir-se ameaçado, pelo menos duas vezes (casos licenciatura e Freeport). Esta opção, bem como a rejeição da TVI, que primeiro era para ele território desconhecido e depois se tornou território "inimigo", justifica-se pelo medo e mesmo aversão de Sócrates à pergunta e ao jornalismo livre. O desprezo que transpareceu no seu olhar, no seu tom e mesmo nas palavras perante algumas perguntas de Judite de Sousa revelam essa atitude. Uma personagem que se construiu sobre a propaganda e a demagogia, sobre palcos montados para ele pelo país fora, com câmaras à frente e sem responder aos jornalistas, sabe que não resiste ao escrutínio de perguntas. A irrealidade do mundo virtual que Sócrates e a central de propaganda de Luís Paixão Martins construíram esboroa-se como um castelo de areia perante a mera existência de perguntas sobre o mundo real. Na entrevista, Sócrates fez lembrar a Norma Desmond crepuscular de Sunset Boulevard (1950): "All right, Mr. De Mille, I'm ready for my close-up". Os três temas da entrevista já eram conhecidos antes: o diferendo com Cavaco Silva, o Freeport e a crise. Quanto a esta, as respostas mostraram um primeiro-ministro sem estratégia: apenas medidas tácticas para cada dia que passa, do tipo "o que é que eu hei-de dizer hoje?" em função da agenda mediática; ontem a estafada "esperança" para a Quimonda, hoje uns apoios para 15 mil desempregados, amanhã outro qualquer radioso "futuro". Sócrates mostrou em definitivo não ser primeiro-ministro para tempos de crise, não ter estatura de estadista. Quanto ao potencial conflito com o Presidente da República, revelou insolência: pela primeira vez em democracia, um chefe de Governo falou em nome do chefe de Estado, como se este dependesse dele. Não recordo tal desplante político por parte de um primeiro-ministro, ainda por cima autodesmentindo-se e desautorizando o seu fiel número dois, António Vitorino. Quanto ao caso Freeport, nada de novo excepto o especificado ataque ao Jornal Nacional de 6.ª na TVI. É também a primeira vez em décadas de democracia que sucede um ataque dum primeiro-ministro a um órgão de informação e sem desmentir uma única das suas notícias. Sócrates parece achar que responde politicamente às notícias e comentários sobre o caso lançando uma bateria de processos nos tribunais a cronistas e jornalistas, também sem paralelo na democracia portuguesa. Apenas confirma aversão à liberdade de informação e de expressão, característica política que tenho atribuído aqui a este poder desde 2005. Hoje está à vista de todos. Exemplifica-o a injustificada violência assumida na entrevista contra Judite de Sousa. Desta vez, ela fez diversas perguntas importantes (José Alberto Carvalho, o sempre-em-pé, limitou-se a seguir o rumo das perguntas da sua número dois na Direcção de Informação). Sócrates quase chegou a extremos de linguagem contra a jornalista. A expressão facial de Sousa revelou a tensão e o insólito de ter pela frente um primeiro-ministro agressivo como nunca se tinha visto desde o 25 de Abril. Ao incrível ataque de Sócrates, a TVI respondeu com uma declaração do seu director-geral, José Eduardo Moniz, defendendo a liberdade de expressão e opinião e afastando as pressões. A TVI e também Manuela Moura Guedes anunciaram processos judiciais contra Sócrates, o que é também inusitado em democracia. À primeira vista, parece a resposta adequada, mas seria preferível que deixassem Sócrates a falar sozinho nesta matéria. Sócrates será julgado em breve - pelos eleitores. A maioria absoluta já lhe fugiu há muito, falta saber se o PS ainda consegue chegar aos 30%. A entrevista mostrou aos portugueses Sócrates no ponto de não-retorno. Para mim a questão hoje é esta: quando começará o PS a movimentar-se em surdina para a escolha de um novo secretário-geral - antes ou depois das eleições para o Parlamento Europeu? Ou já terá começado? Quando Norma Desmond, no seu mundo irreal, proclama "Eu sou grande, os filmes é que se tornaram pequenos", faz-se silêncio na sala. E ninguém questiona a grande líder do ecrã quando ela desce a escadaria.»

Eduardo Cintra Torres, Público
 
 

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